A Gamescom LATAM 2026
Nao poderia ser outro assunto
Semana passada aconteceu a Gamescom LATAM 2026 em São Paulo, e infelizmente este ano eu não consegui ir presencialmente. Talvez justamente por isso eu tenha acabado olhando para o evento de uma maneira diferente. Menos pela experiência de estar ali vendo filas, creators, demos, ativações, cosplay e estandes gigantes ao mesmo tempo, e mais pela tentativa de entender o que permaneceu depois que o evento acabou. Passei os últimos dias lendo cobertura especializada, entrevistas, relatórios, comentários de desenvolvedores, posts de executivos no LinkedIn, discussões em comunidades, repercussão de creators e materiais da própria Gamescom. Uma das leituras que entrou nesse processo foi um texto do Mauricio Alegretti, que resumiu boa parte da sensação do evento em uma frase extremamente simples: “mostre o dinheiro”. Veja aqui
<e talvez essa seja a frase mais importante da indústria latino-americana de games hoje>
Porque ela corta a camada mais confortável da conversa. É relativamente fácil olhar para um evento com mais de 154 mil visitantes, centenas de jogos, publishers internacionais, creators gigantes, business area cheia, reuniões B2B e cobertura global e concluir que a indústria latino-americana finalmente encontrou maturidade. Em parte, isso é verdade. A Gamescom LATAM 2026 mostrou uma região mais organizada, mais conectada e mais relevante do que parecia alguns anos atrás. O evento deixou claro que a América Latina deixou de ocupar um espaço periférico dentro da conversa global sobre games. Existe audiência, existe produção, existe creator economy, existe pipeline comercial e existe interesse internacional. O problema começa quando a conversa avança um pouco além da superfície e surge uma pergunta menos confortável: quem está financiando esse crescimento, quem está capturando valor e quanto desse valor realmente permanece na região?
A principal sensação que ficou da Gamescom LATAM 2026 é que a América Latina aprendeu a produzir relevância cultural em games antes de aprender a construir os mecanismos econômicos capazes de sustentar essa relevância no longo prazo. O evento mostrou público, criatividade, creators, publishers, infraestrutura de negócios, networking e visibilidade global. O que ainda apareceu de forma mais frágil foi justamente a camada anterior a tudo isso: o capital especializado disposto a correr risco antes que o projeto esteja pronto, antes que exista validação comercial e antes que uma plataforma global decida que aquele jogo merece atenção.
No fim, todo mundo gosta de apostar no talento emergente quando o risco maior já foi absorvido por alguém antes.
A tentativa de transformar comunidade em indústria
A primeira camada realmente interessante da Gamescom LATAM 2026 foi institucional. O evento claramente tenta ocupar um espaço diferente daquele tradicionalmente associado aos grandes encontros gamers no Brasil. Durante muito tempo, a lógica dominante desses eventos girava em torno de público, filas, anúncios, ativações de marca e presença de influenciadores. A Gamescom LATAM parece estar tentando construir outro tipo de identidade, mais próxima de uma plataforma de mercado do que de uma feira de entretenimento puro.
Isso aparece na expansão da área business, no crescimento das rodadas B2B, na presença de publishers internacionais, nos painéis sobre financiamento, discoverability, publishing, internacionalização e políticas públicas, além do próprio vocabulário utilizado por quem estava lá. O evento parece querer provar constantemente que a região já não deve ser enxergada apenas como uma praça consumidora de jogos, mas como uma cadeia produtiva legítima.
A comparação espontânea com a Brasil Game Show apareceu bastante em comunidades e comentários pós-evento, e o padrão era relativamente claro. Muita gente descreveu a Gamescom LATAM como um evento mais profissional, mais interessante para desenvolvedores e mais próximo da indústria do que do espetáculo tradicional de consumo gamer. Isso não significa que o evento tenha abandonado o público geral. A presença massiva de visitantes continua sendo parte essencial da relevância econômica e cultural da feira. O ponto é outro: o centro de gravidade parece estar mudando.
A Gamescom LATAM tenta se posicionar como infraestrutura. Ela quer mostrar que a região possui estúdios, IPs, profissionais, publishers, creators, instituições e capacidade de produzir negócios de forma consistente. Existe quase uma necessidade constante de demonstrar legibilidade para o mercado internacional, como se a indústria latino-americana ainda precisasse convencer o capital global de que merece ser levada a sério.
O problema é que legibilidade e maturidade são coisas diferentes. Um mercado pode se tornar mais organizado, mais fácil de explicar e mais visível sem necessariamente resolver seus gargalos centrais de financiamento, distribuição e captura de valor. A Gamescom LATAM 2026 mostrou avanço institucional real, mas também escancarou como a indústria regional continua profundamente dependente de estruturas externas para escalar. Plataformas globais, publishers internacionais, programas como ID@Xbox, redes sociais e mecanismos públicos de fomento ainda ocupam um papel central na transformação de talento local em oportunidade econômica sustentável.Veja aqui
O dinheiro aparece, mas ainda não no lugar mais difícil
Um dos números mais repetidos sobre a edição de 2026 foi a estimativa de mais de US$ 180 milhões em novos negócios gerados durante o evento, ampliando uma trajetória que já havia sido destacada na edição anterior. O dado é relevante e não deveria ser tratado como perfumaria estatística. Ele mostra que a Gamescom LATAM já consegue gerar pipeline comercial, aproximar empresas e inserir a região em fluxos internacionais de negociação. Para uma indústria que passou anos tentando convencer investidores e instituições de que games também são economia real, isso importa bastante. Veja aqui
Mas esse tipo de número exige leitura cuidadosa. “Negócios gerados” pode significar acordos de publishing, contratos de outsourcing, serviços, marketing, distribuição, tecnologia, co-desenvolvimento ou simplesmente pipeline comercial estimado a partir de reuniões realizadas durante o evento. Cada uma dessas categorias produz impactos completamente diferentes para a captura de valor local. Um contrato de outsourcing pode gerar receita relevante para um estúdio brasileiro, mas não necessariamente cria propriedade intelectual escalável. Um acordo de publishing pode levar um jogo latino-americano ao mercado global enquanto concentra boa parte do upside econômico fora da região. Interesse comercial ainda não é compromisso estrutural. Veja aqui
É justamente aqui que a frase “mostre o dinheiro” ganha força como diagnóstico e não apenas como provocação. O Brasil e a América Latina já conseguem mostrar talento, audiência, comunidade, criatividade, evento, associação de classe, marco regulatório e capacidade técnica. O ponto sensível parece estar exatamente na fase em que a maior parte dos projetos ainda é pequena demais para o capital tradicional e arriscada demais para investidores que não entendem a lógica específica da indústria de games.
A discussão sobre “falta de investimento” muitas vezes fica genérica demais para explicar o problema real. O gargalo parece mais específico: falta capital inicial especializado, capaz de financiar protótipos, vertical slices, pequenas equipes, primeiros ciclos de produção, marketing inicial e construção de IP antes que o projeto tenha validação suficiente para atrair plataformas ou publishers internacionais. Falta um tipo de financiamento que consiga entender simultaneamente jogo como tecnologia, cultura, produto, comunidade e risco criativo.
<o que, convenhamos, não combina muito com a cabeça de quem ainda tenta analisar estúdio de games usando lógica de planilha de SaaS>
Black Sailors e a dificuldade de transformar identidade em escala
O caso de Black Sailors, da Mandinga Games, talvez tenha sido um dos exemplos mais interessantes para entender a estrutura atual da indústria brasileira. O jogo parte de uma premissa profundamente ligada à história do país: pessoas escravizadas tomam um navio e partem para o mar aberto, transformando memória histórica em narrativa interativa, estratégia e imaginação. Existe algo muito importante nisso. A indústria local começa lentamente a perceber que diferenciação cultural também é ativo econômico.
Ao mesmo tempo, o próprio caminho do projeto revela fragilidades do ecossistema. Pelo que apareceu na cobertura e nos relatos pós-evento, Black Sailors conseguiu avançar graças a uma combinação entre apoio público, incluindo mecanismos ligados à Lei Paulo Gustavo na Bahia, e posterior entrada em programas como ID@Xbox. A sequência é reveladora: primeiro vem o fomento cultural, depois a possibilidade de dedicação integral ao projeto, depois o amadurecimento do produto e só então a aproximação de estruturas privadas mais robustas.
Esse padrão aparece repetidamente na indústria brasileira de games. Existe criatividade, repertório cultural e vontade de produzir IP próprio sem imitar eternamente modelos internacionais já saturados. O que ainda parece faltar é uma ponte sólida entre criação e escala. Sem financiamento inicial, muitos projetos nunca chegam ao estágio em que podem sequer ser avaliados por publishers ou investidores.
A indústria perde jogos antes mesmo de descobrir que eles existiam.
Black Sailors também aponta para outra discussão importante: a América Latina não precisa se limitar a funcionar como supply chain criativa da indústria global. A região possui capacidade de produzir propriedade intelectual própria, com linguagem estética, histórica e cultural diferenciada. O problema é que IP exige tempo, equipe, marketing, iteração, distribuição e financiamento paciente. Sem isso, o caminho mais fácil para muitos talentos continua sendo prestação de serviço para estruturas internacionais já consolidadas.
Creators como infraestrutura econômica
Outro eixo extremamente relevante da Gamescom LATAM 2026 foi o papel dos creators. Cellbit, creators ligados a Minecraft, RPG, esports, FPS e comunidades digitais apareceram muito menos como “atrações do evento” e muito mais como parte funcional da economia de distribuição dos jogos. Talvez esse seja um dos movimentos mais importantes da indústria atual: creators deixaram de ocupar apenas uma camada promocional e passaram a funcionar como infraestrutura.
Em um mercado saturado por lançamentos constantes, discoverability se tornou uma das maiores dores da indústria. Jogos não desaparecem por serem necessariamente ruins. Muitos desaparecem porque ninguém percebeu que eles existiam. Nesse contexto, creators funcionam como curadores culturais, canais de aquisição, validadores sociais e motores de conversa. Eles transformam lançamento em comunidade, recomendação em identidade e atenção em circulação orgânica.
Na América Latina isso ganha uma camada ainda mais forte porque linguagem local importa profundamente. Creators brasileiros entendem humor, timing, meme, referência e comportamento da própria comunidade de um jeito que campanhas globais dificilmente conseguem reproduzir. Quando publishers e plataformas se aproximam desses creators, não estão buscando apenas alcance bruto. Estão tentando acessar legitimidade cultural.
A contradição aparece quando olhamos quem controla a infraestrutura que transforma atenção em dinheiro. A audiência é local, a relação é local e a construção cultural é local, mas os principais mecanismos de monetização continuam concentrados em plataformas globais como YouTube, Twitch, TikTok, Steam e ecossistemas mobile. A América Latina produz relevância enquanto boa parte da captura econômica dessa relevância continua acontecendo fora da região.
Existe uma ironia estrutural nisso tudo. A indústria global precisa cada vez mais de autenticidade local para distribuir jogos de maneira eficiente, mas continua monetizando essa autenticidade através de plataformas centralizadas e internacionais.
O indie como centro criativo e fragilidade estrutural
O BIG Festival continua sendo uma das partes mais interessantes da Gamescom LATAM justamente porque ali aparece o lado mais vivo da indústria. Jogos autorais, experimentação estética, narrativas menos padronizadas e uma relação mais direta entre criador e comunidade produzem uma densidade criativa que dificilmente surge em eventos dominados apenas por grandes marcas globais.
A premiação de Clair Obscur: Expedition 33 como Melhor Jogo e Melhor Áudio reforça uma tendência importante do mercado contemporâneo: quando um jogo consegue unir identidade estética, execução técnica e legitimidade cultural, ele continua acumulando validação em múltiplas camadas da indústria. Ao mesmo tempo, projetos latino-americanos e brasileiros como A Rat’s Quest, A.I.L.A., Capote e Black Sailors mostram que a produção regional começa lentamente a perceber que diferenciação cultural pode ser vantagem competitiva em um mercado cada vez mais congestionado.
O problema é que o indie também concentra a parte mais vulnerável da cadeia. O estúdio independente precisa simultaneamente dominar criação, produção, pitch, marketing, networking, gestão financeira, comunidade e distribuição enquanto tenta sobreviver tempo suficiente para terminar um jogo. O mito do indie genial trabalhando no limite pode render ótimas histórias para palestras motivacionais, mas não constrói uma indústria sustentável. Constrói burnout.
A Gamescom LATAM, talvez sem perceber, acabou revelando exatamente isso: a região já possui talento criativo suficiente para chamar atenção global, mas ainda não construiu mecanismos robustos o bastante para garantir que esses estúdios consigam crescer sem depender constantemente de esforço heroico.
O estágio atual da LATAM
O consenso pós-evento é relativamente simples de entender. A Gamescom LATAM cresceu, bateu recordes, atraiu marcas globais, fortaleceu sua área business, deu espaço para indies e consolidou São Paulo como um ponto relevante do calendário global de games. Tudo isso é verdadeiro.
A leitura mais interessante começa justamente quando percebemos que público não é maturidade econômica, creator economy não significa captura local de valor e presença institucional não representa necessariamente comprometimento estrutural de capital. A América Latina parece estar entrando em uma fase intermediária muito estratégica. Já existe massa crítica suficiente para atrair atenção global, mas ainda não existe profundidade institucional suficiente para garantir captura proporcional do valor que a própria região ajuda a gerar.
Existe talento, mas o financiamento inicial ainda é fragmentado. Existe audiência, mas a infraestrutura de distribuição permanece externa. Existem creators gigantes, mas a monetização principal continua ligada a plataformas internacionais. Existem indies autorais, mas poucos mecanismos capazes de transformar esses projetos em empresas escaláveis de longo prazo.
No fim, a Gamescom LATAM 2026 deixou uma sensação muito específica: a região já aprendeu a produzir relevância cultural global em games. O próximo passo talvez seja descobrir como transformar essa relevância em estrutura econômica própria antes que ela seja absorvida quase integralmente pelas plataformas, publishers e infraestruturas que chegaram primeiro.
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Aqui a gente olha onde o capital está se posicionando.
~ Isa







